CIEE e ACNUR unem forças para capacitar e empregar jovens migrantes e refugiados

A busca por um recomeço em um novo país traz consigo uma série de desafios que vão muito além da travessia das fronteiras. Para jovens migrantes e refugiados, em sua maioria venezuelanos e haitianos, a capacitação profissional tem sido a ponte para a tão sonhada estabilidade.

É nesse cenário que a parceria entre o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) e a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), com o apoio de instituições como Hermanitos e Instituto Acompanhadas, IMDH, AMIRA, SEMTRAS, FUNPAPA, CÁRITAS, Casa do Migrante, SPM, SJMR, AVSI BRASIL, Movimento Social Projeto Brasil – Migrantes e Refugiados, tem mudado a realidade de centenas de famílias. A iniciativa transforma vidas não apenas em Manaus (AM), mas também em cidades como Brasília, Boa Vista, Belém, Goiânia, João Pessoa e Anápolis.

O foco da colaboração é claro: promover a empregabilidade e a inclusão profissional na região. E os resultados já podem ser vistos na prática.

“Nosso principal objetivo, enquanto instituição de assistência social, é viabilizar o acesso de jovens em situação de vulnerabilidade ao mercado de trabalho. O desenvolvimento de parcerias estratégicas é fundamental para levar informação a esse público, orientá-lo e criar oportunidades reais que proporcionem segurança financeira e a transformação de sua realidade socioeconômica”, explica Ranyelle Adorno Braz, supervisora de Assistência Social do CIEE.

Uma jornada de sucesso: de aprendiz à efetivação

A efetividade do projeto ganha rosto e nome em histórias como a da jovem Arlette Albanis Luzardo Monsalve, integrante da turma de 2022. Após passar pelas oficinas de capacitação, ela conquistou uma vaga como jovem aprendiz na Construtora Capital. Seu desempenho e dedicação no ambiente corporativo foram tão expressivos que a trajetória culminou em sua efetivação na empresa.

Casos como este ilustram o potencial de transformação da iniciativa, que atende um público misto com idades entre 14 e 24 anos. Para preparar esses jovens de forma completa para o mercado laboral regional, o projeto atua em duas frentes principais:

Acolhida com a Comunidade: aproxima os jovens do CIEE, apresentando o mercado de trabalho, os programas de Estágio e Aprendizagem e os cursos online gratuitos do Saber Virtual.

Oficinas de criatividade: A iniciativa oferece um espaço de reflexão para o desenvolvimento de novas habilidades e transformação social. O roteiro abrange 10 temáticas essenciais para o mercado, que vão desde a construção da identidade e do currículo, até o desenvolvimento de soft skills (como liderança, comunicação e ética), postura profissional e planejamento.

O grande diferencial metodológico prático, no entanto, é a simulação de Recursos Humanos. Durante as dinâmicas, os participantes são desafiados a assumir a cadeira do recrutador. Eles criam empresas fictícias, desenvolvem logotipos, definem nomes e abrem “vagas de emprego”.

Essa inversão de papéis é estratégica: ao compreenderem a perspectiva do setor de RH, os jovens lidam melhor com a ansiedade e evitam quebras de expectativa quando participam de processos seletivos reais.

“É muito importante eles saberem como ocorre uma entrevista de emprego e o funcionamento do recrutamento. Essas reflexões permitem a construção de novos saberes sobre o mundo do trabalho, a partir de temas transversais e cotidianos. Por isso, organizamos painéis interativos que relacionam experiências pessoais com o universo profissional”, explica Amanda.

Segundo a equipe do CIEE, é visível como os jovens, inicialmente tímidos, desenvolvem suas habilidades de comunicação ao longo das atividades, chegando a se voluntariar para dar depoimentos ao fim do ciclo.

Superando barreiras invisíveis

Apesar do sucesso, o caminho até o mundo do trabalho exige a superação de obstáculos estruturais que poderiam atrasar o ingresso no mundo do trabalho.

“Os maiores desafios no processo de inserção desses jovens refugiados no mercado são a barreira do idioma e a regularização documental. O trâmite de revalidação de documentos junto aos órgãos competentes costuma ser demorado, o que exige de nós um esforço estratégico para conscientizar as empresas e adequar o perfil dos candidatos às oportunidades disponíveis”, pontua Ranyelle.

Para contornar esses desafios, uma rede de apoio entra em ação:

  • Acesso a suporte para regularização de documentos (oferecido por parceiros como Hermanitos e ACNUR).
  • Cursos de português para facilitar a integração.
  • Flexibilidade de horários, com turmas preferencialmente matutinas para respeitar o contraturno escolar.
 

O acolhimento também é construído nos detalhes. A inclusão é uma via de mão dupla, integrando brasileiros e jovens de outras nacionalidades na mesma turma sempre que necessário. O esforço vai além das barreiras institucionais e chega ao engajamento pessoal da equipe.

“Eu estou buscando me capacitar, estou fazendo curso de espanhol para termos a questão do acolhimento com eles. Não acho muito legal a gente falar só português, então, o máximo possível, a gente fala em espanhol lá”, ressalta Amanda.

A coroação: formaturas emocionantes e mercado receptivo

Em Manaus/AM, o encerramento das oficinas não é apenas a entrega de um papel. A conclusão das atividades é marcada por uma cerimônia de formatura real. Os jovens recebem seus certificados e compartilham depoimentos diante de seus familiares, transformando o evento em um marco de grande peso emocional e de integração social.

“No momento da formatura, os pais acabam ficando muito emocionados. Tem uns que vieram refugiados mesmo, fugidos da Venezuela. E aí, ver o filho ali recebendo um certificado, por mais simples que seja, tem uma relevância muito grande para essa família”, conta Amanda.

O mundo do trabalho local tem respondido à altura. Empresas de diversos setores no Amazonas têm demonstrado alta receptividade e priorizado a contratação de migrantes e refugiados, resultando em um volume expressivo de oportunidades geradas.

O sucesso da iniciativa reflete diretamente nas metas institucionais.

 “A nossa parceria com o ACNUR tem apresentado resultados altamente positivos, a ponto de já termos alcançado 123% da nossa meta de atendimento estipulada até 2027. O apoio de uma agência da ONU confere grande credibilidade à iniciativa, o que facilita o engajamento das empresas e fortalece a empregabilidade desses jovens por meio do programa de aprendizagem”, destaca Ranyelle.

Para o CIEE e seus parceiros, os números de contratação são motivos de celebração, mas o impacto principal é, de fato, a mudança de vida.

Compartilhe este post:

Conteúdo Relacionado

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors