O diploma não perdeu valor. Perdeu o monopólio.

Por: Thuinie Daros

Diretora de Qualidade e Inovação Acadêmica – Vitru Educação

Quando um estudante inicia uma graduação, o que ele procura?

Conhecimento, crescimento, reconhecimento, expectativas da família? Tudo isso pode estar presente. Para milhões de brasileiros, existe algo concreto por trás dessa decisão: transformar educação em possibilidade de vida. Ter uma profissão. Ampliar escolhas. Crescer. Trabalhar melhor. Ganhar melhor. Uma das perguntas mais importantes para o ensino superior hoje é simples: o que nossos estudantes conseguem fazer com aquilo que ensinamos?

O Brasil ultrapassou, pela primeira vez, 10 milhões de matrículas na graduação: foram 10,2 milhões em 2024. É uma conquista extraordinária de acesso. A expansão traz uma nova responsabilidade. Quanto mais pessoas chegam ao ensino superior, mais a diferenciação depende também da experiência construída durante a formação.

O diploma não perdeu valor. Perdeu o monopólio da narrativa profissional.

O mercado já sinaliza essa mudança. Segundo o Future of Jobs Report 2025, 81% dos empregadores pesquisados esperam utilizar experiência profissional para avaliar candidatos até 2030. A exigência de diploma universitário aparece para 43%.

Esse dado amplia a responsabilidade da formação acadêmica. O mercado quer saber o que uma pessoa estudou e enxergar evidências do que ela consegue realizar.

É nesse ponto que a trabalhabilidade ganha dimensão estratégica. Trabalhabilidade é a capacidade de aprender, adaptar-se, resolver problemas, construir relações e gerar valor, aumentando seu poder de atração para o mercado em diferentes contextos ao longo da carreira. A discussão ganha urgência quando 39% das competências atuais dos trabalhadores devem mudar ou perder relevância até 2030.

Como preparar alguém para uma profissão que também está mudando? Acrescentar conteúdo ao currículo, por si só, não resolve essa equação.

Precisamos aumentar a densidade de experiência da graduação

Tenho pensado cada vez mais em uma expressão: densidade de experiência profissional. Quantas vezes, durante a graduação, um estudante precisa apresentar uma ideia, receber uma crítica, rever uma decisão, trabalhar com pessoas diferentes ou entregar algo que terá consequência além de uma nota?

Entre essas experiências, o estágio não-obrigatório ocupa um lugar especial. Ele antecipa o encontro com a profissão e coloca o estudante diante de prazos, relações, decisões e problemas reais quando ainda há tempo para experimentar e amadurecer escolhas. Experiência já faz parte da credencial profissional.

Estágio não obrigatório, extensão, mentorias, projetos aplicados, desafios empresariais e pesquisa formam, juntos, o currículo vivido do estudante.

Assistir a uma palestra sobre liderança amplia repertório. Discutir um dilema real com alguém que lidera centenas de pessoas, defender uma decisão e receber uma crítica qualificada acrescenta outra camada de aprendizagem.

Visitar uma empresa aproxima o estudante do ambiente profissional. Entrar nela conhecendo um problema, conversar com a equipe e construir uma solução produz uma experiência que ele levará para a próxima entrevista e para a carreira. A diferença está na intencionalidade pedagógica.

Há outro personagem decisivo nessa transformação: o profissional capaz de transitar com consistência entre academia e mercado. Eu os chamaria de profissionais-ponte. São professores conectados aos problemas de suas áreas, executivos, pesquisadores, mentores, empreendedores e especialistas. Eles ajudam o estudante a compreender algo que nenhum slide ensina completamente: o que acontece com o conhecimento quando encontra a realidade.

Academia e mundo do trabalho têm funções distintas e precisam conversar com mais frequência. Pontes qualificadas ampliam repertório profissional e fortalecem a formação acadêmica.

A meu ver, todo gestor acadêmico deveria fazer uma pergunta simples ao desenhar uma experiência formativa: como meu aluno contará isso daqui a três anos?

Assisti.” “Participei.” “Completei.” 

Ou: 

Resolvi.” “Criei.” “Testei.” “Aprendi.” “Entreguei.” “Transformei.”

A primeira lista registra presença. A segunda revela repertório, autoria e transformação. Por isso, a grande disputa do ensino superior nos próximos anos também será por experiências. Currículos consistentes continuarão essenciais; a força da formação estará em como esse currículo ganha vida.

Voltamos, então, à pergunta inicial. Quando alguém começa uma graduação, o que realmente procura? Procura descobrir até onde pode chegar com aquilo que aprenderá. Essa é uma das responsabilidades mais potentes da educação superior: criar condições para que o estudante comece a construir o próprio futuro profissional antes da formatura.

Compartilhe este post:

Conteúdo Relacionado

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors